O vínculo não nasce no recebimento, embora o recebimento crie o lote. Não nasce no estoque, embora o estoque controle o saldo por lote, nem no cálculo de necessidade de materiais, que apenas planeja o consumo.
Ele nasce no momento em que uma ordem de produção baixa um material: é ali que se registra que determinado lote foi consumido por determinada ordem. E se fecha quando a ordem declara o lote ou o número de série que produziu. Toda a rastreabilidade é essa dupla de registros repetida em cada nível, e depende do apontamento de produção no chão de fábrica estar em operação.
Lote, número de série ou corrida: escolher a granularidade
Rastrear tudo por número de série é tecnicamente possível e economicamente inviável na maioria das operações. A decisão correta é de engenharia econômica, não de ambição.
Quando o lote basta e quando a série é obrigatória
O lote agrupa unidades produzidas ou recebidas nas mesmas condições, e é granularidade suficiente para a maior parte dos componentes. O número de série identifica a unidade individual.
A série costuma ser exigida em produto final, em item com garantia individual e em fornecimento com requisito contratual de identificação unitária. A corrida, por sua vez, identifica a batelada de origem do material metálico e é o vínculo com a composição química e com o certificado, sendo frequentemente a unidade exigida em calderaria e metal-mecânica pesada.
Até onde rastrear
A seleção parte da criticidade: itens cuja falha tem consequência relevante, itens sujeitos a exigência contratual e itens de fornecedor com histórico instável entram no controle. Os demais permanecem sem rastreio individual.
Definir esse recorte por escrito, com o critério explícito, é o que permite implantar em fases. Rastreabilidade total definida no papel costuma resultar em rastreabilidade nenhuma na prática.
Rastrear subconjunto dentro de conjunto: a árvore multinível
Aqui está a diferença entre a rastreabilidade da manufatura não seriada e a de setores de processo contínuo, e é o ponto em que a maior parte do material disponível não ajuda.
Por que o modelo de cadeia linear não serve
Em setores de processo contínuo, a cadeia é essencialmente linear: um insumo vira um lote de produto. Em produção discreta, a peça entregue é um conjunto formado por subconjuntos, que por sua vez foram formados por componentes vindos de lotes distintos.
Rastrear significa navegar essa árvore em qualquer direção e em qualquer profundidade. Isso só existe se cada ordem, em cada nível, registrar o que consumiu e o que produziu.
A genealogia do produto
Quando o encadeamento está completo, o resultado é o que se chama de genealogia do produto: a árvore navegável que liga o produto entregue a cada insumo que o compõe.
Em fabricação de máquinas, o produto final tem número de série próprio e a árvore abaixo dele reúne subconjuntos com lotes diferentes. É o caso em que a rastreabilidade multinível é indispensável e também o mais trabalhoso de implantar.
O que precisa estar registrado para a rastreabilidade existir
Quatro registros sustentam a capacidade inteira, e a ausência de qualquer um cria um ponto cego permanente na cadeia, mesmo com o restante do ERP para indústria bem configurado.
- Lote consumido por ordem, registrado no momento da baixa.
- Lote ou série produzido, declarado no encerramento da ordem.
- Responsável e data de cada operação executada.
- Documentos vinculados, como certificado de material, laudo e a revisão do desenho utilizada.
O certificado vinculado à ordem, não arquivado à parte
O certificado de material guardado numa pasta separada existe e não é localizável quando é preciso. Vinculá-lo à ordem que consumiu aquele lote transforma um documento arquivado em informação recuperável.
Esse vínculo também é o que permite responder a uma auditoria de cliente sem mobilizar a equipe por dias, e conecta a rastreabilidade ao controle de qualidade integrado à produção.